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25th Oct 2009    Category:
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Qualquer Lado No Sul - Viagem ao Reino de Marrocos
1993


1. A Ideia


A ideia desta viagem a Marrocos surgiu durante uma tarde bem passada com alguns amigos num café da terra. Alguém levantou a hipótese de irmos todos fazer uma viagem ao estrangeiro nesse Verão, ideia que me agradou particularmente e eles também pareciam entusiasmados.

O Reino de Marrocos foi o país escolhido para a nossa aventura durante alguns dias do mês de Agosto. Não conhecia muitas coisas sobre este país, mas suspeitava que era um lugar exótico e misterioso.

Pedimos mais uma rodada de cervejas para comemorar a ideia fabulosa que acabávamos de ter. Brindámos, bebemos, rimos e começámos a inventariar uma série de material que precisávamos para a viagem, nomes de lugares onde gostaríamos de ir e toda a espécie de coisas que faríamos. Tinha vontade de partir já no dia seguinte. Estava mesmo muito entusiasmado.

Este entusiasmo não diminuiu quando, alguns dias depois, soube a notícia de que dois dos meus amigos teriam muita dificuldade em concretizar a ideia. Neste momento éramos dois. Tivemos pena que os outros não nos pudessem acompanhar, mas o projecto das férias deveria continuar.

Comprei um pequeno guia turístico sobre Marrocos, cuja leitura passou a ser a minha principal actividade durante as aborrecidas aulas do curso de soldados da Guarda-fiscal. Este curso era um grande frete para mim, contudo, era a forma ideal de ganhar algum dinheiro para as viagens e para pagar a Universidade nos anos seguintes. Os meus colegas do lado, nas mesas ao fundo da sala – lugar privilegiado para estas leituras clandestinas – admiravam a minha audácia! Primeiro, o facto de negligenciar aquelas matérias chatas, e logo depois, a disponibilidade para uma viagem mal planeada a Marrocos.

Nas semanas seguintes passei pela Delegação do Turismo Marroquino em Lisboa e pedi toda a informação disponível para viajar em Marrocos de forma independente. Uma jovem funcionária portuguesa com ar surpreendido ofereceu-me alguns livrinhos ilustrados sobre duas ou três cidades, um mapa do país, a lista dos parques de campismo e das pousadas da juventude, um quadro com as temperaturas médias de cada mês, uma a lista com as cotações do dirham e dois horários desactualizados, um da companhia de ferrys Transmediterrãnea e outro dos Caminhos-de-ferro de Marrocos. Pediu desculpa por não ter mais nada para dar e disse:

“Andem sempre em grupo!”.

Sorri e respondi que o grupo era pequeno, era um grupo de dois!

Passado algum tempo, aquela senhora ter-se-ia surpreendido se tivesse conhecimento que o grupo de dois tinha sido reduzido para apenas um elemento – eu próprio - e então tinha deixado de ser grupo. O único amigo que, até à data, se mantinha firme no propósito de concretizar a ideia da viagem que tinha surgido naquela tarde, também ele tinha agora sérias dúvidas relativamente à ida a Marrocos. Alegava dificuldades em conseguir marcar férias durante o início do mês de Agosto. Propus-lhe que tentasse a segunda quinzena, pois não tínhamos pressa e quinze dias seriam suficientes para nos divertirmos. Todavia, verifiquei que o entusiasmo deste meu amigo também decrescia à medida que se aproximava a data da partida e que nunca levou tão a sério como eu o propósito de concretizar o projecto daquela tarde.

Porém, isto não me desmotivou e decidi que iria apenas eu! O único que tinha sobrevivido à crise monetária, às burocracias das férias, às pressões familiares, mas, sobretudo, à desmotivação e às rotinas a que todos estamos sujeitos. Quando lhes anunciei no mesmo café a minha decisão de partir na semana seguinte em virtude da ideia que nos havia ocorrido ali mesmo naquele lugar, alguns meses antes, pareceram admirados como se a ideia daquela tarde tivesse valido por ela própria, mas tacitamente todos tinham admitido a sua inviabilidade. Se assim foi, tivemos pensamentos contrários face a uma ideia que, para eles não passou de algo efémero e sem futuro e que para mim se tornou num objectivo duradouro que me levaria à primeira grande viagem solitária fora de Portugal.

Nesta altura tinha terminado o curso de formação de soldados da Guarda-fiscal, não como soldado da Guarda-fiscal, mas como soldado da GNR! O poder político entendeu que a Guarda-fiscal fazia pouca falta, pois já não existiam fronteiras para patrulhar, e extinguiram-na enquanto corporação independente, tendo sido integrada na GNR e passando a funcionar como uma brigada dessa corporação. Isto significou que os oito meses que ali passámos a fazer aprendizagens sofre infracções fiscais aduaneiras e outras matérias não teriam utilidade, visto o nosso futuro ser a integração compulsiva na GNR. Aos outros guardas-fiscais já com os cursos terminados davam-lhes a possibilidade de opção. Com as coisas nestes moldes só pude pensar “que pena não me ter dedicado mais cedo a preparar viagens nas aulas teóricas!

Foi desta forma que surgiu a ideia da viagem a Marrocos, tendo-se tornado progressivamente mais sólida durante as leituras clandestinas das aulas do curso da GF.


2. Rumo a Algeciras (16 de Agosto de 1993)

Estava muito feliz ontem à tarde quando deixei a minha casa na aldeia. Esta felicidade teria sido completa se não estivesse manchada pelos laivos de apreensão da minha família, principalmente da minha mãe, perante uma viagem solitária desta natureza sujeita a todas as imprevisibilidades.

Os seus conhecimentos geográficos, políticos e culturais não lhe permitiam determinar com exactidão onde ficava este país estranho, do qual apenas tinha algumas ideias pouca claras e estereotipadas. Por outro lado, não entende a razão por que uma pessoa parte só para simplesmente para viajar. Tentei explicar-lhe por que razão é importante viajar, mas não compreende e não aceita as meus argumentos.

Habituada a movimentar-se num espaço restrito que lhe dá todas as alegrias e tristezas, ao qual lhe chegam através da televisão as mais espectaculares desgraças, crimes, acidentes e catástrofes naturais, a alma desta mulher é um anjo desorientado que jamais encontrará a paz enquanto não deixar de sentir medo e desconfiança. Não consegue esconder no rosto pálido a profunda tristeza de ver partir o filho sozinho para “não se bem onde”. Apesar de me sentir satisfeito com a partida não pude ser indiferente à expressividade dos seus gestos e ao irradiar de uma emotividade sem precedentes, simultaneamente incontrolável e inevitável.

O autocarro da Resende, ao serviço da CP abandonou o largo da Igreja. Durante a viagem encontrei um antigo colega do ensino secundário que viajava para Lisboa onde estava a cumprir o serviço militar. A conversa ajudou-me a atenuar a depressão da partida. Contei-lhe que ia viajar para Marrocos e ele disse que tinha estado em Marraquexe no decorrer de uma viagem de finalistas do 12.º ano. Declarou que não se atreveria a ir sozinho daquela maneira, pois as antigas cidades árabes eram de difícil orientação para quem não conhece. As suas opiniões sobre Marrocos impressionaram-me, mas não me assustaram de forma alguma.

Tomei o caminho da praça do Giraldo. Quando atravessava a praça ouvi alguém a chamar pelo meu nome. Voltei a cabeça e vi o Oliveira e a Manuela que estavam sentados no degrau de um porta. O Oliveira foi meu colega de trabalho durante o primeiro semestre de 1992, quando trabalhei em part-time num restaurante em Évora. Ficámos alguns tempo na conversa. Reparei como estavam simultaneamente divertidos e surpreendidos por me verem ali com uma grande naturalidade a dizer que ia fazer uma viagem até às “portas do deserto”.

O comboio para Vila Real de Santo António partiria de Évora à meia-noite. Enquanto esperava, decidi visitar a dona Francisca, uma velha senhora simpática e faladora, em casa da qual me hospedei durante o período em que fui empregado de mesa.

A velha automotora saiu com atraso e os escassos passageiros saltitavam sobre os duros bancos de madeira amarelada, em resultado de uma viagem trepidante, barulhenta e vagarosa que cortava o negrume da noite alentejana.

Estava uma noite fresca e escura. Nas plataformas da estação de Casa Branca, os passageiros aguardavam silenciosos a chegada do comboio com destino ao Algarve. Pouco depois, vi surgir ao longe uma luz ténue que progredia na nossa direcção e um apito estridente ecoou na estação semidesértica. A composição imobilizou-se com um lamuriante chiar de travões, seguindo-se um solavanco que deve ter acordado todos os passageiros. Entrei e avancei pela carruagem, perscrutando com o olhar todo o espaço à volta na tentativa de detectar um sítio onde me pudesse instalar para passar a noite. Sentei-me junto a um casal de estrangeiros de aspecto nórdico. Senti-me igual a eles e lembrei-me de todas as vezes que encontrava aqueles estrangeiros com aspecto descontraído nas carruagens destes comboios portugueses. Eu invejava-os, gostava de fazer as suas viagens, de parecer um viajante, de percorrer muitos lugares.

Embalado pelas monótonas guinadas das carruagens senti-me adormecer pela madrugada.

Em Vila Real de Santo António tinha ainda alguns assuntos a tratar antes de atravessar o Guadiana. Em virtude das incertezas quanto à data da partida não tinha comprado os cheques de viagens e agora estava indeciso em relação à forma como transportar o dinheiro. Levantei o máximo permitido numa máquina ATM, comprei algumas pesetas e guardei o restante para transformar em moeda marroquina logo que possível. Na prática, partia para esta viagem com mais que sessenta e cinco contos, sem cartões de crédito e sem cheques. Este dinheiro deverá levar-me, se tudo decorrer como espero, até ao sul do Reino de Marrocos, não sei exactamente onde, qualquer lado no sul!

Atravessei o Guadiana e desembarquei na pequena vila andaluza de Ayamonte. Surpreendentemente, apesar de ser ainda cedo, o próximo autocarro para Sevilha só tinha hora de partida às onze horas e quarenta e cinco minutos, o que inviabilizaria a minha chegada a Tânger ainda nessa tarde.

A viagem até Algeciras foi longa, primeiro, através de intermináveis planícies e depois, junto à costa, a paisagem tornou-se acidentada e a carretera serpenteava pelos encostas das serras, cujos cumes estavam povoados por um exército de ventoinhas produtoras de energia para as centrais eólicas. Eram já mais de seis da tarde quando cheguei a Algeciras. Pensei em procurar alojamento, pois não queria chegar a Tânger fora de horas. Comecei a pedir informações mas ninguém me sabia responder. Andei um pouco à deriva pelas ruas da cidade até esbarrar com a estação de comboios. Entrei e comecei a ambientar-me. Vi o sinal de informações afixado numa parede e dirigi-me para lá. Decididamente não estava com sorte. “El albergue esta completo y camping muy cerca tampoco lo tienes” – respondeu o señor. Pensei que era já o primeiro obstáculo que teria de resolver. Agradeci ao espanhol e parti sem saber muito bem o que iria fazer.

Na outra extremidade da estação estava uma agência de viagens. Dirigi-me para lá e pedi informações sobre os horários dos ferrys que atravessavam o Estreito. Os barcos partiam com muita frequência e o percurso até Tânger demorava duas horas e meia. Decidi comprar um bilhete para o dia seguinte. Depois, o rapaz da agência assinalou no mapa algumas pensões baratas e eu parti satisfeito com a decisão que tinha tomado. Apesar disso, há momentos que não sabemos qual é, na realidade, a melhor decisão. Desde a estação até ao porto alterei completamente os planos que, alguns minutos antes considerava acertados.

Comecei a estudar com atenção o horário dos ferrys e verifiquei que ainda saíam vários para Tânger nessa noite. No porto, confirmei os horários, o tempo da viagem e a hora local marroquina – duas horas a menos do que em Espanha. Conclui que, se embarcasse no ferry das vinte e um e trinta chegaria a Tânger às vinte e duas locais, uma hora razoável. Talvez ainda conseguisse apanhar um comboio para Marraquexe e, no dia seguinte, acordar já no sul! Estava decidido, partiria esta noite.

Procurei um supermercado nas proximidades do porto para me abastecer de alguns produtos básicos, pois não sabia o que me esperava em Tânger. O porto de Algeciras é um lugar com um ambiente pesado. Os traficantes de droga são muito insistentes: “Amigo, quieres un poco de chocolate?...”

De regresso ao porto, comprei dirhams na primeira loja que vi e encaminhei-me para a sala de espera. A partir deste momento apoderou-se de mim uma sensação esquisita. Através dos vidros das janelas observava o movimento das pessoas, carros, polícias descontraídos, traficantes de droga agitados, envolvidos pelo entardecer acinzentado. Tornei-me nostálgico perante aquele cenário. Havia poucos passageiros e nenhum com aspecto de turista como eu.

Já passava bastante das vinte e uma e trinta e nem sinais de entrarmos para o ferry. Era já muito mais tarde que o previsto quando abriram as entradas. Continuava a sentir-me estranho, mas decidi não atribuir grande importância a esta situação, pois não estava habituado àqueles espaços nem à insegurança provocada pelos últimos acontecimentos.

O barco era enorme, constituído por uma ampla sala com mesas e sofás, um bar, restaurante, bancos, lojas e até uma mesquita não se dê o caso de algum muçulmano mais religioso ser apanhado pela hora da oração em plena viagem! Tudo muito diferente do que tinha imaginado. Estava à espera de encontrar umas embarcações mais pequenas e simples, uma vez que não se tratava de uma viagem muito longa. O preço do bilhete justifica perfeitamente um barco desta categoria, duas mil e setecentas pesetas uma viagem. Pensei que já tinha gasto muito dinheiro e ainda nem sequer tinha entrado em Marrocos. Cheguei a acreditar que, com tão pouco dinheiro, não passaria de Tânger. Admiti ficar alguns dias naquela cidade e regressar a Portugal, deixando fracassar o projecto.

Não resisti a interpelar um casal de marroquinos sobre o preço de uma viagem de comboio até Marraquexe. Com um sorriso amigável, a senhora respondeu que não era caro, talvez trezentos dirhams ida e volta. Por falar em dinheiro, precisava de arranjar um esconderijo para ele. Procurei os W.C. através dos corredores labirínticos. A salvo de olhares indiscretos dobrei as notas marroquinas e fiz dois pacotes envoltos em papel higiénico. Descalcei os ténis, retirei-lhes as palmilhas e introduzi um pacote em cada um. Com esta pequena fortuna escondida sentia-me mais seguro. Mesmo que fosse vítima de um assalto, este levaria mais tempo a realizar-se e, quem sabe, não teria tempo e sorte de me safar com o dinheiro!?


3. Sob as Estrelas de Tanger (17 de Agosto de 1993)



"C’est une ville triste" dizia um senhor de meia-idade para o filho pequeno, enquanto o ferry se aproximava do porto de Tânger. Os meus olhos oscilavam entre os números electrónicos do relógio de trezentos escudos - que comprara especialmente para esta viagem no cais do Barreiro – e o véu negro que envolvia a cidade. Se a cidade era triste eu, naquele momento, também não estava muito alegre.

Sentia-me um estranho que se atrevia a desembarcar a meio da noite numa das mais enigmáticas cidades do Norte de África. Vinha-me à memória uma frase que li num guia turístico americano sobre Marrocos: “Tangier is for those whose sensibilities delight in the sinester”. Estava ansioso para sair do barco. Muito tempo antes das manobras de acostagem estarem concluídas, já eu me encontrava a dois passos da porta. A porta abriu-se e uma pequena onda de gente precipitou-se para o exterior. Deixei-me ir no meio dos desconhecidos, todos caminhando velozmente sobre uma estreita ponte de ferro. Depois, chegámos a uma estrutura de betão e descemos uma rampa. Subitamente, os meus companheiros de viagens dispersaram-se, entraram em carros, em taxis... Simplesmente desapareceram como alguém sempre desaparece quando tem um rumo certo. Dois minutos foram suficientes para ficar sozinho na imensidão do porto de Tânger. Tinha de agir rapidamente. Estava emocionado, mas não tinha medo. No fundo, sentia até uma fraca vibração de liberdade. Perscrutei a escuridão envolvente, medi com o olhar a selva de sombras que tombavam dos contentores e avancei instintivamente para a parte mais iluminada.
Um vulto emergiu do negrume. Caminhava a uns cinquenta metros de mim em direcção a uma eventual saída. Apressei o passo e pensei que esta criatura era a minha salvação, pois não avistava mais ninguém. O homem olhou-me sem deter a marcha. Não sabia em que língua me devia dirigir a ele; árabe não sabia. Talvez francês! Não me recordo como o interpelei, mas descobri logo que falava espanhol.

“sou português, acabei de chegar e não conheço a cidade. Queria para uma pousada de juventude que fica na rua Al Antaki...”, esperei com ansiedade.

“Pero que haces aquí solo? Esto es muy peligroso! Tánger peligroso, todo Marruecos peligroso!”

Pensei que este era como a minha mãe, com a diferença que ele conhecia o espaço e a minha mãe não. Levei a sério as declarações do senhor.

“Soy español. Trabajo en los camiones. Non conozco la calle que procuras.”

Perguntei-lhe se conhecia um hotel barato onde pudesse passar a noite. Naquele momento já não estava interessado em procurar a pousada, após as explicitas declarações que ouvira. Certamente não seria sensato vaguear pelas desconhecidas ruas de Tânger, com uma mochila que me identificava claramente como um turista acabado de chegar e que seria um alvo perfeito para os oportunistas da noite.

Depois de ter parado alguns segundos, o espanhol continuou a andar e eu mantive-me ao seu lado. Não tinha intenção de o deixar, ao menos até me encontrar numa zona mais confortável e movimentada.

“Yo me voy a mi hotel; te costa 200 dh la noche”

Era caro, mas não tinha alternativa. Disse-lhe que, se não incomodasse, iria com ele para esse hotel. Anuiu com um sinal afirmativo.

À medida que avançávamos, uma luminosidade progressiva inundava o caminho até chegarmos a uma larga avenida com tanta claridade como se tivesse acabado de nascer o sol. Havia gente sentada em esplanadas e a passear numa faixa central povoada por palmeiras altas. Encostados aos troncos destas árvores, indivíduos com ar ocioso e sinistro olhavam-me com algum interesse ou admiração. Ignorei-os, mas sentia a sua presença e o seu olhar.

Entrámos no hotel. Um curto corredor conduziu-nos a uma pequena sala. Três homens estavam sentados em cadeirões vermelhos à direita. Um deles, assim que nos viu, levantou-se e colocou-se estrategicamente atrás do balcão. Para minha grande desilusão, quando estava decidido a pagar os 200 dh pelo quarto, uma voz expressiva anunciou em francês:

“C’est complet monsieur.”

Demorei algum tempo a digerir a informação e, creio que não disse nada, quando a mesma voz declara:

“Vous ne serez pas heureux ce soir, car tous les hôtels autour sont complets.”

Achei estranho os hotéis de Tânger estarem com uma taxa de ocupação tão elevada, mas não me atrevi a duvidar.

A noite avançava velozmente. Nem queria saber a hora que o meu relógio marcava. Levei algum tempo a assimilar esta situação inesperada. Não resisti a perguntar-lhe:

"Mais, vous êtes sur que vous n’avez rien!"

"Oui monsieur, rien du tout!"

Ocorreu-me uma ideia que talvez resultasse. Disse-lhe que se me cedesse um espaço mínimo, não precisaria de uma cama, nem sequer de um quarto, pois tinha o meu próprio saco cama e colchão. No decorrer destes diálogos esqueci-me completamente do espanhol que ali me tinha conduzido. Queria agradecer-lhe; todavia, tarde demais, tinha desaparecido...

Prostrado atrás do balcão de madeira, o árabe olhou-me, pareceu reflectir e um emaranhado de sons saíram dos seus lábios grossos. Dirigia-se aos outros dois que continuavam sentados nas poltronas. A seguir olhou para mim e disse-me para seguir o homem mais idoso que, entretanto, se levantara. Ainda perguntei quanto tinha de pagar, mas ele respondeu com um gesto indiferente.

Atrás do velhote árabe, que envergava uma espécie de vestido branco sem talho e uma minúscula boina de renda no cimo da cabeça, subi muitas escadas. Quando as escadas forradas com carpetes vermelhas acabaram, ele empurra com dificuldade uma porta e, subitamente, encontro-me num terraço ao ar livre ao nível de cinco ou seis andares.

Pousei a mochila no chão e suspirei. O árabe apontou para um colchão de rede velho e desarticulado que se encontrava a um canto, insinuando que poderia ali matar o meu cansaço. Não falava francês. Eu abanei a cabeça com um gesto afirmativo, mas não tencionava ali dormir. Ficaria melhor na minha placa.

Ligeiramente inclinado para a frente, cedendo ao peso da sua coluna gasta, fez um sinal com a mão para o seguir. Voltámos a entrar no patamar das escadas e avançámos dois ou três metros por um corredor. Abriu, triunfante, a porta de uma casa de banho minúscula com um cheiro pestilento. Agradeci; ele sorriu, pronunciou algo incompreensível e começou a descer a escadaria com as vestes brancas a esvoaçarem tal fantasma da noite que acaba de fazer uma boa acção. Finalmente, tive um pouco de paz e uma grande sensação de segurança. Estava na rua, é certo, mas bem alto.

Foi um momento especialmente diferente, aquele. Fazia calor, apesar do céu estar enevoado, e o ruído dos barcos, dos comboios e dos carros na Avenida de Espanha parecia não ter fim. Espreitei para baixo, inclinando-me no muro do terraço e dali observei, com calma, o movimento na avenida, que começava a diminuir. Continuavam os barulhos dos comboios de mercadorias em manobras e, ao longe, na baía, viam-se as luzes dos barcos.

Ataquei a mochila com voracidade. Ia estreá-la. Era a primeira vez que precisava de utilizar o seu conteúdo. Estava contente por ter o material de que precisava para quase todo o tipo de situações. Para além de algumas roupas, tinha um saco cama, um colchão, tenda de campismo, toalha de praia e de banho, dois pratos, talheres, prato e frigideira, fogão, cantil, molas, cordas… um verdadeiro arsenal que me dava uma grande autonomia.

Desenrolei o colchão e o saco cama. Estendi-me em cima deles e, com os olhos nas nuvens negras, reflecti sobre os últimos acontecimentos. Considerei-me demasiado excêntrico por ter empreendido esta viagem sem me ter informado melhor sobre o país, sem ter uma maior segurança financeira, pois corria o risco de ser assaltado e ficar sem um centavo e, sobretudo, pelo facto de não ter sabido controlar esta ânsia de chegar a Marrocos. Deveria ter dormido em Algeciras e vir no dia seguinte.

Imaginei a costa Algarvia como se estivesse a ver um mapa e senti-me muito longe de Portugal. Pensei que ia ser difícil ir além de Tânger, mas, por outro lado, acreditava que a verdadeira viagem iria começar amanhã.

Na complexidade destas reflexões esqueci-me que não tinha jantado. Tirei da mochila as compras que fizera em Espanha. Bebi metade de um pacote de leite e comi papossecos com queijo e fiambre.

As nuvens foram desaparecendo e encontrei-me debaixo de um céu estrelado, preparado para adormecer enquanto reflectia na imensidade de sensações e decisões que tomei ao longo do dia...


4. Um Chá de Menta (18 de Agosto de 1993)



Espreitei para a rua e senti-me mais animado agora à luz do dia. Arrumei tudo rapidamente dentro da mochila, desci as escadas e fui encontrar o marroquino que me atendeu na noite anterior, com um ar descontraído, sentado numa cadeira junto ao balcão de madeira. Estendi-lhe uma nota de 20 D, agradeci e mergulhei na Avenida de Espanha.

A pousada ficava a uns escassos 100 metros do hotel. Fiz o check in e deixei a mochila.

Mal comecei o passeio senti o olhar daquela gene estranha. Os vendedores, os traficantes, os mafiosos…

Subia uma pequena rua que conduzia à Medina quando fui abordado por um indivíduo que repeli de forma pouco simpática. Arrependi-me de o ter tratado daquela forma e tornei-me mais simpático. Ele aproveitou então para oferecer os seus serviços de guia e para tecer elogios aos portugueses. Acho que era quase impossível fazê-lo aceitar que não precisava de guia e preferia passear só. Acabei por me resignar e aceitei a sua presença.

Na mesma rua, um pouco mais acima, entrámos num café. Meia dúzia de velhos barulhentos era a clientela. Ele acenou para uma escada que dava para uma varanda interior sobre o próprio café. Subi e ele seguiu-me. O chão estava forrado com uma carpete cinzento-escura e, junto da parede, uma esteira oval, onde nos sentámos. À nossa frente estava um pequeno caixote rectangular com seis buracos, que parecia esperar algo. Ofereceu-me o célebre chá de hortelã, que eu aceitei.

Um indivíduo alto, de rosto torrado e com a “bolacha” de renda na cabeça, aparece com dois grandes copos, um em cada mão. O seu olhar voou para os meus ténis e eu lembrei-me imediatamente do dinheiro escondido nas palmilhas. As primeiras palavras do árabe foram para aos meus ténis. Tinha de os descalçar, pois não era de boa educação estar ali a descansar em cima de um tapete com sapatos. Como sinal de respeito devia retirá-los. Só esperava que ele não se oferecesse para os guardar em qualquer lado, pois teria de recusar, já que antes de qualquer gentileza estava o meu dinheiro.

Descalcei-me e, entretanto, o árabe que já tinha largado os copos nos dois buracos daquela caixa rectangular, descia as escadas até ao café. Guardei os ténis unto de mim pronto a deitar-lhes a mão se fosse necessário.

O marroquino, de aspecto pobre, preferiu alimentar-se; para ele veio um leite com chocolate e uma sandes. Assim que acabou e comer tirou um saco plástico do bolso. Lá de dentro tirou uma canilha com uns 15 centímetros de comprimento e, com os dedos, encheu-a com um produto chamado Kif – haxixe misturado com marijuana. Ofereceu-me e eu recusei. Não ia adiantar explicar-lhe que não podia utilizar aquelas substâncias, pois pertencia a um grupo militar cuja filosofia e princípios não estavam de acordo com esses hábitos. Pelo contrário, tinha como função evitar e dissuadir a utilização destas substâncias. Insistia em "dar-me" uma bolinha jeitosa; dizia que era para eu fumar durante a minha viagem.

O chá de hortelã estava saboroso. Bebia pequenos goles enquanto ele falava das drogas marroquinas. Dizia que eram muito boas e tinham fartura, pois grande parte era produzida nas montanhas do Rif, no norte do país. Embora ilegais por força das pressões internacionais, as drogas leves tinham grande aceitação em Marrocos. Apesar disso, segundo a informação de alguns guias de viagem, era desaconselhado aos estrangeiros o seu consumo e transporte, uma vez que a polícia era muito mais tolerante com os nacionais do que com os estrangeiros.

“Kif c’est très bom, c’est pur; l’alcool est une merde!”, exclamava, batendo no pito e deixando sair uma baforada de fumo. E continuou as suas reflexões acerca do álcool e das drogas. Em sua opinião são as drogas leves que tornam melhores as pessoas e não as cervejas que alguns jovens vão beber para a praia. Afirmava que todos os velhos fumavam kif e isso era uma prova de que era bom.

Subitamente, disse-me para esperar um pouco e saiu. Passados alguns minutos apareceu com dois pares de sandálias de couro. Pretendia que eu os comprasse. Não tinha intenção de comprar nada, mas ele foi tão insistente que acabei por experimentar as sandálias e comprar um par.

Gostava de ter vagueado sozinho pela Medina de Tânger, mas o indivíduo fez questão de me ir mostrar aquilo que ele pensava que um estrangeiro gostaria de ver: as mesquitas, a Kasbah e pequenas ruas comerciais. No final da visita dei-lhe 10 dh e disse-lhe que talvez ainda nos encontrássemos, mas não pretendia vê-lo mais.

Depois do almoço num restaurante da Avenida de Espanha, passeei pela parte nova e pelas praias. As praias nem pareciam praias, pois além de haver pouca gente não se vive aquele espírito balnear a que estamos habituados. Praticamente não se vê uma mulher em fato de banho.

Regressei à pousada para deixar o saco com a toalha e as sandálias. Sentei-me uns instantes a falar com um marroquino, instrutor de francês, de Marraquexe, que estava a passar as férias em Tânger. Falámos sobre a sua cidade e sobre religião, um tema quase incontornável.

Começava a entardecer. Seria melhor passar pela estação de comboios para me informar sobre os horários entre Tânger e a capital. Sentiam-me mais seguro e tinha decidido continuar a viagem. Estava a gostar do que tinha visto em Tânger e imaginava que, à medida que me dirigisse para sul, mais possibilidades tinha de encontrar um ambiente mais genuíno, pois Tanger é ponto de chegada, um encontro de culturas e, segundo dizem, mantém ainda um certo ambiente dos tempos em que foi um protectorado internacional, na primeira metade do século XX.

Passei por árabe à porta da gare, quando alguém se dirigiu a mim naquela língua. O jovem ficou impressionado quando lhe revelei que era português. Bronzeado como estava, passava bem por árabe, não fosse o facto de não articular um único som naquela língua. Começámos a falar em francês e fiquei satisfeito por poder falar com alguém que não o fizesse a troco de dinheiro. Passeámos pela praia enquanto falávamos da sua vida. Vivia na Medina, tinha muitos irmãos, estudava num colégio da cidade e gostava de poder viajar pela Europa.

Já perto da Avenida de Espanha, afastou-se de mim e dirigiu-se a uma senhora encoberta por um manto verde. Era a sua mãe e andava a fazer o giro. Interroguei-o sobre o que significava “fazer o giro” e ele explicou que as mulheres muçulmanas, ao entardecer, devem dar uma volta sozinhas para reflectirem, para se encontrarem consigo próprias e com Deus.

Aproveitei a sua companhia para me indicar a localização dos correios, de onde pretendia telefonar à minha mãe. Telefonei, mas não lhe devia ter dito que voltaria a ligar no dia seguinte, nem tampouco que estava na companhia de um jovem local, pois constatei alguma apreensão e desconfiança na sua voz.

A pousada da Juventude de Tânger é uma autêntica comunidade, onde os espaços e dormir se misturam com a própria sala e com a recepção. Os beliches duplos estão espalhados ao longo das paredes e junto das colunas que sustentam as arcadas de arquitectura árabe, formando, elas próprias, pequenos núcleos dentro deste espaço aberto.

Fiquei surpreendido quando entrei no quarto de banho e abri as torneiras: nem uma gota de água! Compreendi imediatamente por que um exército aprumado de garrafas de água plásticas de 1,5 l se encontrava formado ao longo da parede. Hesitei uns segundos e acabei por me lançar na luta. Agarrei a primeira garrafa e despejei o conteúdo sobre a minha cabeça. Foi um banho bastante económico; cerca de 8 litros de água, que apesar do frio, me deixou bem disposto.


5. O Comboio para Rabat (19 de Agosto de 1993)



Determinado a continuar a viagem rumo ao sul, comprei um bilhete até à capital. Quando me dirigia para as plataformas fui interpelado por um homem de bata azul, que deduzi ser funcionário dos caminhos-de-ferro. Fez-me sinal para o seguir, ao mesmo tempo que tentava tirar-me a mochila das costas. Reagi e opus-me, mas não valeu a pena; ele insistiu e eu acabei por ceder. Porquê recuar se os senhores só estavam a querer ser simpáticos? Retirei a mochila que caiu imediatamente nas mãos de dois indivíduos (não sei de onde surgiu o segundo). Eles iam à frente, falando árabe, e eu atrás. Achava que não valia a pena a minha mochila ser transportada por dois indivíduos desde a estação até à carruagem, quando eu estava habituado a fazer vários quilómetros com ela às costas.

Instalei-me no meu lugar, mas os indivíduos não se iam embora. Com a mão estendida, olhavam-me de forma intimidatória. Por incrível que pareça, apenas neste momento fiquei a saber a identidade dos homens. São bagageiros que actuam por conta própria e tentam aproveitar-se da ingenuidade dos estrangeiros para imporem os seus serviços, induzindo as pessoas a acreditarem numa suposta gentileza, sobretudo quando é evidente que a sua ajuda não é necessária, como foi o meu caso. Quem precisa de duas pessoas para transportar uma mochila escassas dezenas de metros? Fiquei tão chateado por ter sido enganado de forma tão descarada que não pretendia dar-lhes nada. Insistiram com uma lamúria incompreensível. Meti as mãos aos bolsos e dei-lhes um punhado de francos franceses. Os seus rostos exprimiram um profundo desagrado e voltaram, de imediato, a uma nova ofensiva. Não queriam moedas, pois não era possível fazer o seu câmbio. E estava decidido a não alimentar aquela indolência e, então, não tiveram outra alternativa senão partirem com os seus objectivos por satisfazer.

A viagem de comboio Tânger-Rabat foi muito interessante, apesar do calor que se abatia sobre a planície, de onde emergia uma ou outra colina. O suor começava a molhar-me a camisa. As carruagens estavam repletas de gente, principalmente camponeses e habitantes das aldeias próximas. Estas aldeias tinham um aspecto muito pobre, com as suas casas de tijolo que nunca viram pintura, as ruas de terra batida e as crianças que jogavam à bola debaixo das árvores. Por vezes, o edifício da estação era o mais grandioso. Nas estações surgiam vendedores que entravam no comboio num atropelo constante: cigarros, sandes, bebidas, frutas… Havia mesmo quem viajasse exclusivamente para, vezes sem conta, percorrer a composição num frenesim inabalável com objectivo de assim ganhar a vida.

Para além de um jovem casal de italianos, os restantes passageiros que viajavam junto de mim eram marroquinos. A italiana lia uma história ao companheiro com aquele sotaque cantado que é característico desta língua. Os outros riam, falavam e comiam. Eram muito cordiais e chegaram a oferecer figos e pastilhas elásticas.

O comboio avançava e eu sentia-me, literalmente, a descer o continente africano. Estava num país que apenas conhecia das poucas descrições que lera e de um conjunto de impressões que se estavam a confirmar.

Apeei-me em Sidi-Kacen, localidade onde devia esperar um comboio que, finalmente, me levaria a Rabat. Estava com fome e, como ainda tinha algum tempo, fui averiguar se existia algum bar por perto. Entrei na estação e vi um pequeno aglomerado composto por dez ou quinze pessoas que se agitavam e contorciam, provavelmente em frente do balcão do bar. Tentei introduzir-me no meio daquela massa humana em movimento. Decididamente, não tinha experiência suficiente para navegar nestes oceanos e deixei-me ficar para último, pois, não restavam dúvidas de que seria esse o meu destino. Passados uns longos minutos, depois de saciados os apetites da clientela local, tive o balcão de madeira só para mim. Isto era uma verdadeira antiguidade, onde a escolha se limitava a pão marroquino com sardinhas em conserva ou atum. Escolhi uma sandes de atum e uma garrafa de sumo de laranja. Com uma prática invejável, o empregado introduz a lâmina da navalha no pão em forma de disco, com dois centímetros de altura, separa as duas partes e, sobre uma dessas partes, despeja a lata de atum deixando escorrer todo o óleo espesso até à última gota. Embrulhou a sandes num papel de embrulho grosseiro e, com um amável sorriso de quem já fez aquele gesto milhares de vezes, entregou-me o meu almoço!

Enquanto devorava a minha refeição sentado no exterior da estação, comecei a verificar uma certa agitação nos passageiros que se encontravam dispersos pelas plataformas. As pessoas movimentavam-se com as suas bagagens de sacos plásticos e malas antiquadas. Andavam de um lado para outro, imobilizavam-se alguns segundos num local, mas logo depois agarravam na tralha e corriam para outro sítio. Apenas alguns minutos depois entendi que os marroquinos tinham “pressentido” a chegada do comboio e tentavam adivinhar o ponto exacto onde poderiam encontrar as portas das carruagem. A tensão subiu assim que o comboio começou a parar com um chiar estridente. Agora, as pessoas corriam numa azáfama sem nexo, como se aquele comboio fosse a última salvação. Eu assistia, surpreendido, à violência social daquele acontecimento e, mais uma vez esperei que a multidão entrasse primeiro. Em Portugal já tem acontecido estarem lugares onde as pessoas tentam ser as primeiras a entrar em diversos espaços, mas um reboliço destes, por causa da entrada num comboio, nunca tinha visto.

O comboio deslizava lentamente. Eu observava, com interesse, as paisagens secas e as pessoas que se encontravam nos campos ou caminhavam pelas estradas paralelas ao caminho-de-ferro. Grupos de mulheres com sachos e sacos plásticos deslocavam-se nos campos. Homens robustos, com turbantes velhos e longas vestes de um castanho-escuro, equilibravam exagerados molhos de palha nas costas de pequenos burros e, nas colinas áridas, viam-se os pastores com os seus rebanhos.

Eram já dezasseis e trinta quando cheguei a Rabat. Sabia para onde queria ir, mas não sabia como ir. O meu guia era muito simples e tinha pouca informação. Por outro lado, não encontrei nenhum mapa da cidade, que muitas vezes se encontram nas estações ou nas imediações destas.

Perguntei a alguns transeuntes as indicações a seguir e não demorei muito tempo a encontrar as referências indicadas. Sair por uma porta das muralhas, virar à direita e continuar sempre junto às paredes das referidas muralhas. Encontrei a pousada, mas só abria às dezanove horas. Era um grande inconveniente, pois, com a mochila, não podia começar a explorar a cidade. A única saída era esperar num sítio perto a hora de abertura do Auberge de Jeunesse.

Sentei-me num banco de pedra virado para a estrada. Estava cansado, com fome e um pouco decepcionado. Sabia, contudo, que isto também era o resultado do choque cultural, da ansiedade e da incerteza permanente face às situações que ia vivendo. Por outro lado, era esta imprevisibilidade que tornava a viagem cada vez mais emocionante.

Enquanto procedia à inscrição na recepção da pousada, travei conhecimento com um jovem que acabara de chegar e tencionava ali passar a noite. Era alemão, chamava-se Tom e dirigia-se para as cidades de Meknes e Fez. Já tinha visitado vários locais no sul. Após nos termos instalado, decidimos sair para um passeio nocturno. Sozinho não o teria feito sem antes conhecer os locais à luz do dia.

Partimos pelas ruas da Medina de Rabat, compridas e fracamente iluminadas, com vendedores ainda muito activos a chamar ao negócio. Havia um grande movimento de pessoas que, numa agitação constante, regateavam e compravam os mais diversos produtos. O mais impressionante eram as lojas de especiarias: espaços enormes preenchidos por sacas abertas, de onde emergiam montanhas coloridas de todo o tipo de especiarias. Uma lamúria monótona invadia as ruas, era a música árabe que se escapava de alguns estabelecimentos. As lojas, as barracas e os vendedores de rua disputavam o pouco espaço das estreitas artérias e sucediam-se amontoados até ao ponto de não se saber onde começavam os produtos de um e começavam os do outro.

Caminhámos tanto que nem sabíamos onde nos encontrávamos. O bulício começa a diminuir, as ruas tornam-se mais escuras e com aspecto de beco. Sugeri que regressássemos, pois não era sensato dois estrangeiros acabados de chegar, andarem a vaguear em locais desertos como aquele se estava a tornar. Não era muito tarde, mas isso não importava. O importante era que não conhecíamos, estava escuro e não se via movimento de pessoas. No dia seguinte, constatei que, de facto, nos estávamos a encaminhar para um lugar pouco recomendado: o acesso da Kasbah das Oudaias.

Regressámos às ruelas de marroquinos ávidos pelas compras. Naquele momento sentia-me verdadeiramente embrenhado na vida de uma cidade árabe tal como a tinha imaginado: o vestuário islâmico de grande parte dos homens e mulheres, a música e, sobretudo, aquele cheiro activo a hortelã e especiarias.

Penetrámos num café daquelas apertadas ruas, sentámo-nos nas pesadas mesas e pedimos dois chás de menta. O que me deliciou mais naquele momento não foi sequer o sabor do chá, foi o facto de, pela primeira que me encontro em Marrocos, ter tido a possibilidade de viajar livremente sem a pressão de guias, como aconteceu em Tânger. Um enorme rádio antigo em exibição numa prateleira soprava diversos sons incompreensíveis, mas que ajudavam a dar àquele lugar uma atmosfera irreal. Desfrutámos daquele espaço enquanto íamos fazendo alguns comentários e nos conhecíamos melhor.

A pousada era simples mas acolhedora. Os quartos mobilados com beliches duplos, dispunham-se à volta de um pátio interior em forma de quadrado. Neste pátio de chão gasto, cresciam alguns arbustos e encontravam-se várias mesas e cadeiras de plástico branco. Foi sentado no parapeito de uma grande janela do quarto que conheci mais alguns hóspedes. Duas raparigas da Nova Zelândia que eram professoras primárias e viviam em Londres. O Lazreg Belgoul que é um professor de Matemática árabe argelino, passa férias em Marrocos e pensa ir até Tan Tan Plage já no Sahara Ocidental. Fique também a saber que o Tom era estudante de electrotecnia, vive em Karlsruhe e trabalha num bar em part-time.

Mais tarde conheci outro jovem argelino com o qual mantive, de início uma conversa interessante. Nem me recordo exactamente como começou o nosso diálogo, mas quando dei conta da situação, andávamos enleados em complexos princípios religiosos. Com uma paixão avassaladora, tentava explicar-me as razões que o levavam a acreditar em Deus. Começou a agitar-se perante a minha indiferença face às questões da existência de Deus. Quando duvidei explicitamente exclamou: “Mais ça existe!” O jovem argelino que, quando não falava de Alá tinha um ar simpático, foi ao rubro quando me benzi só para lhe demonstrar que no Ocidente as pessoas têm outras formas de rituais religiosos. Este movimento assustou-o tanto que se levantou e se afastou um pouco, num gesto de repulsa. Parecia disposto a converter-me ao Islão e queria começar os ensinamentos naquele preciso momento. Convidou-me a seguir os seus movimentos num dos rituais mais emblemáticos da crença muçulmana: as preces diárias sobre um tapete. Ajoelhados em cima do tapete, curvam-se respeitosamente até a testa bater no chão. Considera-se que os muçulmanos que têm a testa fortemente macacada são fiéis incondicionais das cinco orações diárias. Eu declinei o convite e achei preferível fingir que acreditava no que ele estava a dizer, porque o jovem era fanático, ou simplesmente um bom crente. Acreditava no céu e no inferno, nos bons e nos maus, no fim do mundo e no poder de Deus. Finalmente, convidou-me para passar alguns dias em sua casa, na Argélia, talvez para me instruir um pouco mais a respeito da religião.


6. Um Sósia de Mário Soares num Camping de Salé (20 de Agosto de 1993)



Não era possível ficar as próximas noites naquela pousada porque esperavam um grupo que havia reservado todos os lugares. Como queria dormir em Rabat ainda esta noite, precisava de definir o meu rumo. Durante o pequeno-almoço, muito animado, no pátio da pousada, com os amigos que conhecera na noite anterior, fiquei a saber que Tom e Le Bleu também pretendiam ficar em Rabat nessa noite. Isto animou-me, pois poderíamos partir os três à procura de um alojamento barato. Tudo estava facilitado, principalmente porque Le Bleu falava árabe. Eu disse-lhes que tinha uma tenda de campismo na mochila e poderíamos procurar um parque, se existisse algum por perto. Le Bleu conhecia um que ficava situado numa cidade satélite de Rabat: Salé, uma cidade que se desenvolveu justamente na margem direita do rio Bou Regreg, que serve de fronteira entre os dois aglomerados.

Entre despedidas e votos de boa viagem, deixámos os outros hóspedes e partimos a pé pelas ruas da capital. Era uma amizade efémera, mas muito significativa naquele momento. Le Bleu era o líder, pois conhecia a língua e os costumes do país. De mochila às costas, deixámos o Boulevard Hassan II, atravessámos a ponte com o mesmo nome, o nome do actual monarca de Marrocos, e entrámos na cidade de Salé através de uma das portas da muralha. Não estava muito preocupado com o caminho, pois Le Bleu mostrou-se um óptimo guia sem segundos objectivos,

Quando apresentei o meu passaporte português o recepcionista levantou a cabeça e, com um brilho especial nos olhos, exclamou “Olhe bem para mim, não me acha parecido com o Mário Soares!? Olhei com atenção para o seu rosto e, efectivamente ali estava um cópia quase perfeita do Dr. Mário Soares. O homem estava orgulhoso com o seu protagonismo e eu achei engraçado encontrar ali uma pessoa que tinha consciência das suas semelhanças físicas com o Presidente da República Portuguesa.

Enquanto armávamos a tenda, Le Bleu perguntou-me: “Não te lembras daqueles rapazes?” Eram dois rapazes altos de cabelos compridos que estavam sentados debaixo de uma árvore. Lembro-me de os te visto na pousada esta manhã. Le Bleu contou-me que os dois alemães estavam com problemas. Primeiro tinham-lhes roubado as suas bagagens na praia de Agadir, após terem pedido a um grupo de turistas seus compatriotas para as vigiarem enquanto tomavam banho. Os alemães não ligaram às coisas e eles ficaram despojados de todo o material necessário para o dia a dia. Restava-lhes, contudo, o bilhete de avião e o passaporte. Porém, esta madrugada ao saírem da pousada, aperceberam-se de que o recepcionista se enganou e deu os seus passaportes a duas raparigas. Estão constantemente a telefonar para a pousada na esperança que se desfaça o equívoco a qualquer momento.

Depois de concluída a operação de montagem da tenda fomos até à praia de Salé. Sentámo-nos na areia e, ao olhar em redor, fiquei decepcionado com aquele lugar: estava tudo sujo com papéis e latas; a areia era escuríssima e praticamente não se via uma mulher em fato de banho!

À tarde apanhámos um táxi para Rabat. Achei interessante a forma como funcionam os táxis. Não há uma praça onde as pessoas, ordenadamente se dirigem ao carro da frente. Os taxistas amontoam-se literalmente pelas ruas e fazem uma publicidade declarada aos seus serviços. O cliente só tem que discutir preços e embarcar no táxi mais conveniente. Em Marrocos existem dois tipos de táxis: os petit-taxi para viagens quase exclusivamente nos aglomerados e os grand-taxi, carros maiores e mais robustos que efectuam ligações entre cidades, vilas e aldeias.

Le Bleu dirigiu-se a um taxista em árabe e, em seguida, entrámos no carro. Sentámo-nos os três no banco traseiro, mas o veículo continuou imóvel. O argelino explicou-nos que só partiria quando estivesse completo; entenda-se por completo, mais do que o limite normal. Além de nós os três já instalados no bando de trás, vieram para este banco mais duas pessoas e outras duas para o banco da frente. Lá partimos. Eu estava fascinado com esta viagem em grand-taxi, com todos aqueles desconhecidos. Le Bleu explicou que estes táxis funcionam como uma espécie de mini-autocarros e, ao partir com a lotação esgotada é bom para todos, já que os custos da viagem diminuem.

Percorremos algumas da principais ruas de Rabat, tomámos chá numa esplanada e dirigimo-nos à Torre Hassam e ao mausoléu Mohammed V. Tirámos fotografias com a Torre ao fundo, enquanto algumas mulheres árabes, cobertas dos pés à cabeça, nos olhavam discretamente. Le Bleu acha que elas fingem vir passear até ali apenas para verem os turistas.

A Torre Hassam é um bloco quadrangular de pedra acastanhada que se encontra inacabada e fechada ao público. Contudo, a sua estrutura exterior é fabulosa. Em frente a esta Torre abandonada encontra-se o mais célebre mausoléu de Marrocos, onde está sepultado o pai do rei Hassam II. Debruçado de uma varanda, tive oportunidade de contemplar aquele cenário de devoção e grandeza. Mohammed V continua a ser um rei adorado, acompanhado por um muezzin durante vinte e quatro horas que murmura passagens do Corão. A sala encontra-se praticamente vazia, como é característica dos grandes espaços religiosos muçulmanos, onde é sobretudo valorizada a arte arquitectónica. Sobre um chão de mármore cinzento-escuro está, num canto da sala, esá o túmulo do monarca e, no canto oposto, a silhueta do religioso debruçada sobre o Livro Sagrado. A cada porta do mausoléu, um guarda da Gendarmerie Royale exibe toda a sumptuosidade que a ocasião requer. Impecáveis fardas brancas com calças largas e faixas vermelhas à cintura. Na cabeça, um barrete verde e uma grande capa pérola, que lhes pende dos ombros até ao chão. A mão direita enluvada segura o cano castanho de uma espingarda, cuja coronha repousa alinhada junto à biqueira da bota.

Decidimos ir jantar os três. Como de costume, Le Bleu foi o guia. Percorremos ruas escuras e sujas, com gente enigmática, mulheres cobertas com as vestes tradicionais e pequenas lojas embutidas nas paredes. Contudo, acabámos sentados à mesa de um restaurante muito frequentado por turistas ocidentais. Era já noite alta quando nos dirigimos para um terminal de autocarros urbanos. Um grande aglomerado de gente chamou-nos a atenção e fomos dar com uma briga entre dois indivíduos, um dos quais segurava uma navalha e desafiava o outro. Afastámo-nos rapidamente e procurámos um autocarro que nos levasse de volta a Salé. Foi a minha estreia nos autocarros urbanos. Entrámos pela porta traseira e, no interior, fomos identificados por um cobrador muito singular que agita um lata velha cheia de moedas e passa bilhetinhos de um pequeno bloco. Enganámo-nos na paragem e ainda tivemos de andar um pouco a pé.

Terminámos a noite na esplanada do parque a falar de viagens.


7. Na Segunda Maior Cidade de África (21 de agosto de 1993)



Depois de um animado pequeno-almoço na esplanada do camping “La Plage”, partimos para a estação de comboios de Salé. Tom ia deixar-nos e seguir o seu itinerário, que passava por Meknés e Fez. A partida do Tom foi um momento nostálgico para todos. Debruçado na janela da carruagem, acenou-nos com a mão até o comboio desaparecer. Eu e Le Bleu seguimos para Casablanca, após duas horas de espera na estação de Salé.

Instalámo-nos na Pousada de Juventude. Apesar de estar muito cansado, decidi aproveitar a tarde e visitar uma das maiores cidades do Norte de África. Vagueámos pelo porto de pesca e continuámos à beira mar até à Mesquita Hassan II, uma obra colossal da arte islâmica, em parte, construída sobre o Oceano. Passámos pelo souk, onde comprei postais e selos.

Ao serão, enquanto Le Bleu escreve o meu nome em caracteres árabes, eu aproveito para fazer algumas observações sobre o país destes primeiros dias de viagem.

Apesar de alguma abertura ao ocidente, a religião é o principal pólo gerador de comportamentos sociais. Mesmo em Casablanca, é facilmente visível o efeito dessas normas no comportamento das mulheres: os lenços na cabeça, as roupas largas e compridas, uma frequência muito reduzida de locais públicos, para além das ruas e das lojas.

Em Salé, assisti de longe à “prier” de sexta-feira; grande vénias a Alá e, no final, uma grande nuvem branca, dispersa-se a pé, em tractores, em bicicletas… irradiando fé e confiança.

Não bebem álcool, mas nas esplanadas podem ver-se muitos velhotes a fumarem cachimbos de kif , a beberem chás de menta ou café com leite.

Em pararelo a este fervor religioso há uma grande “apologia” política sustentada pelas pesadas molduras à volta das fotografias de Hassan II que, orgulhosamente se exibem em todos os lugares públicos. Por outro lado, não há cidade que não tenha uma rua, torre ou mesquita com o nome Hassan II ou Mohammed V.


7. Explosão de Vida na Praça dos Mortos (22 de Agosto de 1993)



Era bastante cedo quando acordei na pousada de juventude de Casablanca. Despedi-me de Le Bleu que se encontrava no beliche de baixo. Mais tarde partiria para Tan Tan Plage, já no Shaara Ocidental. Meio ensonado, não se esqueceu de me advertir: “Il faut être vigillant!”

Como era ainda muito cedo, tive problemas para sair da pousada. A porta estava fechada e não encontrava ninguém na recepção. Depois de várias tentativas infrutíferas, decidi começar a fazer barulho até aparecer um recepcionista sonolento.

Apesar do atraso de cerca de dez minutos que este acontecimento inesperado me tomou, consegui chegar a tempo de apanhar o comboio para Marraquexe. Foi uma viagem interessante através de planícies áridas e desérticas, onde surgiam pequenas aldeias com as suas casas douradas. Pastores e agricultores vagueavam pelos campos e eu interrogava-me como os animais conseguiam sobreviver naquelas terras sem vegetação.

Mal entrei na estação de Marraquexe, assisti a uma avalanche de motoristas de táxi e de todo o tipo de angariadores. Não vinha preparado para aquilo. Um deles propôs levar-me a um hotel no centro que custava 35Dh. Como a pousada ficava muito longe da agitação da praça Jemaa el Fnaa e o preço me pareceu barato, o meu primeiro impulso foi aceitar. Contudo, depois de ter largado a mochila na porta bagagens do automóvel pareceu-me que aquele veículo não era um táxi. Já instalado no banco da frente, tentando raciocinar rapidamente acerca daquela situação, olhei para o lado e vi um carro estacionado justamente ao lado. Então perguntei ao condutor se o carro onde me encontrava era um táxi. Com muita surpresa e com sinceridade, o senhor respondeu que aquilo não era táxi nenhum. Violentamente, abri a porta e saltei para fora. Dirigi-me ao porta bagagens e retirei a minha mochila enquanto o auto intitulado taxista estava a discutir com o seu compatriota que lhe tina estragado o negócio.

Tinha muita informação sobre a pousada da juventude e ia tentar encontrá-la. Estava um calor tórrido, a mochila pesava cada vez mais e, apesar de saber que a pousada ficava muito perto, estava com dificuldade em lá chegar.

Depois do respectivo banho de água fria, de lavar roupa e de repousar alguns minutos, conheci três argelinos e um canadiano que também estavam na pousada. Convidaram-me para sair com eles. Aceitei o convite, pois, para além de ter companhia não precisava de me preocupar com a primeira abordagem a uma Marraquexe desconhecida, nem de discutir com os taxistas ou supostos taxistas!

Por quatrocentos escudos, tivemos um grande almoço num restaurante dos subúrbios, próximo da pousada. Depois apanhámos um autocarro para a praça Jmaa el Fnaa.

Já tinha lido muito sobre o misticismo desta praça e tudo se confirmava. Ali coexistiam todo o tipo de personagens. Grupos de música tribal e acrobatas executavam exacerbados movimentos de dança. Os vendedores de água, de vestido vermelho e tiras de cabedal cruzadas no peito, onde estavam penduradas brilhantes tigelas de cobre, transportavam às costas um reservatório de pele de cabra e chamavam a clientela com uma pequena sineta. Na cabeça usavam um chapéu enfeitado com bolas de lãs coloridas. As cobras e as serpentes contorciam-se numa dança permanente embaladas pelo som hipnótico que saía das flautas. Veteranos que desciam das montanhas do Atlas com estes animais fascinantes e temidos que aqui descobriram uma fonte de rendimento e protagonismo. As peles negras contrastam com os turbantes brancos que envolvem as cabeças cansadas de tanto balançar ao ritmo das flautas. A esta hora os turistas começavam a chegar a este grande espaço e os artistas tornavam-se ainda mais activos. Mais duas cobras saem debaixo de uma cesta. Levanta a cabeça e prossegue, rápida e sedutora, o seu bailado feroz, ritmado e inebriante.

Eu estava literalmente pasmado; nunca tinha visto um espectáculo destes ao vivo. Não resisto a querer imortalizar este momento. Chamo um senhor que anda com uma cobrita nas mãos e peço-lhe que a enrole ao pescoço. Não tive medo nenhum da cobra; teria tido mais medo do homem que, por vezes, utilizará o animal para pressionar as pessoas a darem-lhe dinheiro, caso contrário ameaça com deixar a cobra apertar cada vez mais à volta do pescoço da vítima. Eu próprio assisti a uma cena onde este tipo executava um assalto diplomático a um jovem estrangeiro. Contudo, eu estava descansado, pois encontrava-me com os argelinos da pousada.

Logo ao lado, sentado no chão, um dentista esperava clientela… À sua frente, sobre um pano preto, encontravam-se em exposição centenas de dentes. Também em exposição estavam os aterradores alicates e outros instrumentos de extracção.

Esta praça não é mais do que um amplo espaço vazio, mas que nunca está vazio. Não é a sua arquitectura nem os seus edifícios que lhe asseguram tanta popularidade, mas sim a incessante massa humana que a povoa de manhã até altas horas da noite e lhe confere um misticismo único que provém de uma actividade dinâmica, eminentemente social, cultural e comercial que se transforma ao longo das horas em diversas explosões de exotismo.

Acalmei as emoções com um docíssimo chá de menta numa esplanada junto desta praça e, já noite, os amigos argelinos regatearam, com ar de “habitués”, uma viagem em “petit táxi” até à pousada.


8. Na Medina de Marraquexe (23 de Agosto de 1993)



Comecei o dia com uma caminhada agradável junto às muralhas vermelhas rodeadas de palmeiras. Diz-se que Marraquexe tem mais de cem mil palmeiras e que não é permitido cortá-las sob pretexto algum.

Quando cheguei à praça Jemaa el Fnaa, decidi enfiar-me na Medina. Já tinha lido em vários sítios que esta medina era uma das mais labirínticas do Norte de África e que era extremamente difícil um estrangeiro conseguir orientar-se neste espaço. Não me assustei com isso e apenas fiquei mais excitado por estar na iminência de penetrar num mundo fechado, restrito, onde o ritmo da vida não era ainda ditado pelos cânones da modernidade; um mundo dos árabes, o coração da cidade. A medina é o núcleo primitivo da cidade árabe cercada por muralhas com entradas e saídas por um número limitado de portas que, noutros tempos, eram fechadas durante a noite para impedir as invasões e as conquistas. As ruelas são tão estreitas que, às vezes têm pouco mais de um metro de largura. São tortuosas, descrevem curvas e mais curvas e são tão parecidas que chegará um momento em que estamos convencidos que sabemos perfeitamente onde nos encontramos, mas, na realidade, isso não é verdade. Todavia, para os locais, cada beco, cada ruela estreita e labiríntica tem características únicas que as distinguem dos milhares de outras.

Há uma porta na medina onde se localiza o souk, um mercado muito diversificado e permanente. O souk é dividido por secções, conforme o tipo de produto vendido: joalharia, perfumes, especiarias, cereais, etc. Entrei precisamente por um destes mercados como se conhecesse o espaço e soubesse para onde me dirigia. Continuei e, quando pensei que me encontrava já suficientemente embrenhado na medina, comecei a andar mais devagar e a admirar a infinidade de produtos à venda. Havia muito artesanato, artigos únicos que, aos meus olhos, eram autênticas obras de arte. Os comerciantes árabes são muito apelativos e insistentes e não perdem uma oportunidade para influenciar o potencial comprador. Perante as suas ofertas eu sorria e continuava esta fantástica incursão completamente à deriva. Um dos mercados que gostei muito foi o dos animais: aves, lagartos e outras espécies exótica esperavam pacientemente em gaiolas que algum turista excêntrico ou um normalíssimo local lhes oferecessem uma nova vida. Com a bolsa ao ombro e debaixo do braço, continuei a minha viagem incerta na mais completa desorientação. Os souks começaram a desaparecer e encontrei-me numa área residencial desértica. Decidi voltar para trás. Preferia os espaços movimentados apesar de tudo. Encontrei um pequeno bar incrustado na parede da rua. Encostei-me ao balcão e, tentando demonstrar um à vontade que, na realidade não sentia, pedi uma coca-cola. Bebia pequenos goles enquanto reflectia no caminho a seguir e observava os locais que passavam. Ali não havia turistas. Voltei a entrar nas ruas comerciais e encontrei um grupo de turistas alemães orientados por um guia oficial. Pensei colar-me ao grupo e sair com eles da zona labiríntica, mas depressa me fartei dos velhotes e da agressividade das exclamações em língua alemã. Prossegui sozinho e, sem saber como, cheguei a Jemaa el Fnaa.

Até agora tinha sido poupado aos guias clandestinos, mas acabei por ser abordado por um. Fingi que não percebia nada e falei português, depois continuei em silêncio, mas de nada valeu, pois ele era persistente. Queria mostrar-me a medina a troco de uma gorjeta. Quebrei o silêncio e declarei, em francês, que acabara de visitar os souks.

“Tu n’a rian vu”, respondeu ele.

Voltei a afirmar que tinha visto tudo o que me interessava e agora só queria que ele me deixasse em paz. Mas ele não deixou.

“Tu me dones 5 dh et je te montrerai le vrai souk!”

Neguei. Mas o rapaz tinha mais argumentos. Dizia que era bibliotecário e que ganhava tão pouco que não dava para sustentar a família. Comecei a ceder e estava disposto a dar-lhe os 5 dh, aproximadamente cem escudos, se ele me abandonasse. Não aceitou. Queria o dinheiro, mas não de forma gratuita. Insistiu para me acompanhar a ver as maravilhas escondidas do souk.

Interroguei-me sobre o motivo de tanta insistência, uma vez que estava disposto a dar-lhe o dinheiro sem ele ter qualquer tipo de trabalho. Duas hipóteses se colocavam: ou pretendia utilizar outro tipo de estratégias com o objectivo de me extrair mais dinheiro ou simplesmente assaltar-me pela força num território que eu desconhecia.

Acabei por acompanhá-lo, sempre com a consciência do risco que corria. Também pensei que a verdadeira aventura e o carácter genuíno de determinadas experiências têm um preço.

Se já não estava muito confiante no jovem árabe, as minhas suspeitas aumentaram quando começou a conduzir-me por ruas desérticas e sem actividade comercial. Protestei e disse-lhe abertamente que não queria andar nestes lugares despovoados. Ele pareceu compreender a minha hesitação e conduziu-me para a azáfama comercial.

Fique mais tranquilo e voltei a entusiasmar-me com a magia de lugares ainda mais remotos, que não consegui descobrir antes e nem sequer teria tido a ousadia de aí penetrar sozinho.

Através de um emaranhado de becos, chegámos às oficinas dos artífices da madeira. Uma espécie de cavernas dissimuladas que, por elas próprias, já constituem um espaço complexo, onde dezenas de homens diligentes e habilidosos se encarregam de transformar as grosseiras tábuas em objectos fantásticos, tudo através de um processo artesanal herdado de muitas gerações. Depois assisti ao trabalho no couro, desde a secagem das peles à curtição, enquanto explicava as regras do mercado e me conduzia através de um labirinto dentro de outro, às oficinas dos curtumes, onde uma vez mais homens cortavam, talhavam e coziam as mais diversas peças que depois iriam ser exibidas nas lojas da medina.

Havia muito tempo que não fazia ideia do lugar onde me encontrava. Deixara de desconfiar do rapaz e apenas estava deslumbrado pelo que via e ouvia. Supunha que andava na periferia dos souks,uma espécie de "zona industrial", os lugares onde se encontravam os oficinas e os armazéns, sítios que nunca teria encontrado sozinho.

O auge desta visita aconteceu quando, através de estreitas passagens deparo com uma casa de aspecto ruinoso e o guia me fez um sinal para espreitar pela porta aberta. Sentados no chão e em cima de sacos de lã, mais de uma dezena de velhos árabes, vestindo a indumentária tradicional, permaneciam silenciosos. Esperavam pacientemente a chegada dos compradores de lã que tinham interrompido esta reunião de negócios para se deslocarem à oração. Os anciões olharam-me com curiosidade quando introduzi a cabeça dentro do compartimento, mas mantiveram-se impassíveis. Alguns minutos mais tarde, um grupo de homens, os potenciais compradores, surge na esquina. Enfiados nas suas vestes brancas e cinzentas caminham desembaraçados e com ar satisfeito. Ir-se-iam retomar as negociações.

Quase no final da visita, tentei negociar o preço de uma pasta de couro, mas não me sentia preparado para discutir os preços e desisti.

Despedi-me do rapaz na praça Jemaa el Fnaa. Ele tinha razão; eu não tinha visto nada. Adorei este complemento



9. Travessia do Alto Atlas (24 de Agosto de 1993)



Esta madrugada ao acordar na miserável cama da pousada de juventude de Marraquexe, mal sabia que iria ter um rol de surpresas durante toda a manhã.
Tinha programado o despertador, mas na ausência de mesinha de cabeceira, deixei-o em cima da própria cama, junto à almofada. Quando acordei por mim próprio, verifiquei que o relógio tinha desaparecido. Fiquei mais desperto e comecei a procurá-lo. Encontrei-o debaixo da roupa junto dos pés. Enquanto eu dormia tranquilamente deslizou através dos lençóis e foi tocar lá em baixo sem que ouvisse nada.
Eram já sete menos vinte e tinha de caminhar mais de dois quilómetros a pé para apanhar o autocarro para Ouarzazate. Apesar de tudo decidi tentar… Lavei a cara à pressa, peguei na mochila e comecei a andar apressadamente, controlando cada passo com o relógio.
Quando atravessava a Av. de France, vi uma mancha creme que se aproximava. Era um petit-taxi. Nunca tinha andado sozinho de táxi porque sabia que os taxistas cobrariam um preço demasiado alto, mas naquele momento não hesitei. Levantei a mão e o veículo imobilizou-se imediatamente. Eu próprio estabeleci o preço. Eu próprio estabeleci o preço, uma quantia certamente alta mas que não estava em condições de discutir. O taxista concordou. Coloquei a mochila no banco traseiro e sentei-me ao seu lado. Foi uma corrida contra o tempo e, uns segundos nos semáforos podiam ser cruciais. Chegámos à estação cinco minutos antes das oito e fique satisfeito com o meu desempenho.
Dirigi-me às bilheteiras e pedi um bilhete para Ouarzazate. Com ar de quem costuma dizer aquilo muitas vezes, o senhor respondeu que os bilhetes já tinham sido todos vendidos e não restavam lugares no autocarro. Que decepção; pousei a mochila no chão com alguma violência e mostrei uma cara bastante aborrecida. Deve ter sido uma expressão tão desesperada que, imediatamente o senhor fez um sinal para me aproximar novamente do balcão. Pensei que ia sugerir outro autocarro ou um transporte alternativo, mas, para minha surpresa, vendeu-me um bilhete e mandou-me ir a correr para a pista de embarque.
Eram oito horas em ponto e ainda não se encontrava ninguém no interior do autocarro. Os passageiros aglomeravam-se à volta de uma balança manual, onde as respectivas bagagens eram pesadas para depois pagarem a respectiva taxa. À medida que os seus sacos de plástico pretos, sacos de lona e caixas com frangos e até mesmo mesas e cadeiras, o auxiliar do funcionário da balanças alcançava as coisas a outro que se encontrava no tejadilho onde um emaranhado de sacos, malas e outros objectos se encaixava perfeitamente, dando à camioneta um aspecto muito característico.
Era a primeira vez que viajava de autocarro em Marrocos. Estava um pouco surpreendido com aqueles trâmites, mas estava satisfeito por ter superado os imprevistos e estar ali preparado para partir rumo ao sul tal como tinha decidido. Enquanto esperava a minha vez para pesar a mochila observava a azáfama dos vendedores: uns vagueavam por entre os passageiros com bandejas cheias de copos para servir chá, outros com cântaros de água e ainda aqueles que vendiam cigarros avulso. Entretanto a minha mochila foi pesada e eu instalei-me no autocarro.
Saímos de Marraquexe em direcção ás montanhas do Alto Atlas. Alguns quilómetros depois da cidade, encontrámos várias caravanas de pequenos burritos carregados de gente que tomavam conta da estrada. Estava tudo tranquilo, mas esta viagem não iria ser isenta de surpresas.
Enquanto admirava a beleza das paisagens do Atlas toquei no saco de tecido que habitualmente transporto comigo e senti o fundo molhado. Suspeitei que tinha acontecido o pior e as suspeitas confirmaram-se: o pacote de leite tinha rebentado, inundando tudo.
Como a viagem se previa longa, quer pela distância em si quer por outros condicionalismos – Relevo acidentado, muitas paragens, bagagens a subir e a descer do tejadilho… – no dia anterior tinha comprado pão, leite e dois ovos com intenção de fazer uma omeleta. Transportei os ovos com cuidado até à pousada, deitei um pouco de óleo na frigideira, preparei o prato e o garfo para mexer os ovos, bati com o ovo na superfície dura da frigideira, mas nada aconteceu; o ovo ficou apenas levemente danificado, voltei a tentar e vi logo que eram ovos cozidos. Tinha comprado dois ovos cozidos sem saber! Decidi fazer uma sande de ovo cozido e estava tudo resolvido… Contudo, acabei por não a comer porque estava tudo ensopado de leite. E a minha preocupação seguinte eram os papéis que também estavam dentro do saco. Retirei o guia e o mapa de Marrocos e atirei o saco com as outras coisas para baixo do banco. Um velhote marroquino que viajava ao meu lado e observou todo aquele drama apercebeu-se da minha decepção. Tirou uma toalha do seu saco e ofereceu-ma para limpar os livros. Limpei página a página e, no final, o simpático senhor quis ajudar a secá-lo, folheando as páginas rapidamente e repetidas vezes para que não se colassem. Permaneci um pouco aborrecido com aquela porcaria debaixo dos pés.
A camioneta carregada, tanto no interior como no exterior, gemia enquanto subia as montanhas do Atlas. Aldeias pequenas com casas de terra confundiam-se com a própria paisagem, rebanhos de cabras em cima de árvore comia as folhas do ramo mais alto e vacas nos vales verdejantes guardadas por mulheres com roupas coloridas.
As montanhas do Alto Atlas, áridas, imponentes e semidesérticas, contrastam com os vales verdes e os leitos dos rios, alguns secos outros correndo apenas um fio de água.
Finalmente, o autocarro imobiliza-se numa destas aldeia de montanha, onde há alguns restaurantes miseráveis, talhos com carne rodeada de moscas e vendedores de pedras polidas.
Aproveitei esta paragem para limpar o meu saco. Um empregado de restaurante correu a encher uma tigela com água para me ajudar a lavar o saco e, no meio da estrada, executámos esta invulgar tarefa: ele deitava pequenas torrentes de água enquanto eu esfregava fortemente o tecido. Depois ele pegou no saco, já com um aspecto mais limpo, e colocou-o em cima de uma panela a secar ao sol, enquanto eu me instalava numa mesa do seu café com o meu companheiro do autocarro. Pedimos um chá de menta, que foi precedido por mais uma generosa oferta do velhote. Senti-me na obrigação de não recusar as três bolinhas de peixe que orgulhosamente me oferecia. As bolinhas tinham aspecto horrível e um gosto igualmente mau, contudo, num gesto de boa vontade, lá as devorei rapidamente.
A viagem continuou e as montanhas atingiram o seu ponto mais elevado. Uma visão espectacular abria-se sobre a cordilheira do Atlas. A estrada serpenteava e subia cada vez mais, enquanto mulheres e crianças marroquinas vomitavam para dentro de sacos plásticos. Apenas a grandiosidade da paisagem atenuava o cheiro a vomito e a suor.
Ao fundo já se via Ouarzazate, cidade baixa, cor de areia, que se desenvolveu na orla o deserto e ficou célebre desde que foi eleita por vários realizadores de cinema. A cidade em si não é particularmente atraente. O monumento mais impressionante é o Kasbah de Tourirt, uma construção que lembra a noite dos tempos, mas que, na realidade, data apenas do século XIX.
Foi nas imediações da Kasbah que andei perdido após ter deixado a Gare Routière. Preferi caminhar até ao parque de campismo, pois tina um mapa com a sua localização. Contudo, entrei por um atalho que me conduziu a ruas estreitas de terra batida e com casas cor de areia, de cujas janelas algumas crianças espreitavam, emitindo alguns sons, para se esconderem em seguida. Sabia que estava a invadir um território residencial muito próprio, mas tive receio. Pelo contrário, senti-me cada vez mais livre ao penetrar em sítios desconhecidos pelos meus próprios meios. Continuei a caminhar, guiado pelo instinto e, subitamente, em contraste com a calma e silêncio das ruas por tinha passado, cheguei a um largo muito animado onde tinha lugar um um barulhento mercado com cliente e vendedores de tal forma entusiasmados a regatear que mal deram pela minha presença.
No camping reinava uma calma total. A “recepcionista”, uma senhora berbere descontraía ou dormitava, estendida no chão estendida no chão. Mal deu pela minha presença, levantou-se pesadamente e ainda numa espécie de transe. Deambulou pelo parque e apontou uma área. Acenei com a cabeça afirmativamente e não fiz perguntas. Sabia que a senhora berbere estava ansiosa para retomar o seu repouso.
Estava muito calor. Quando saí para passear em Ouarzazate, eram já quatro da tarde. Tirei algumas fotografias da Kasbah . Visitei um dos pontos mais altos da cidade que oferece uma visão sobre o casario amarelo. Deambulei por duas ou três ruas de souks. Nada de espectacular como Maraquexe. Aqui ninguém chateia. Nem vendedores, nem guias… Visitei a estação privada de autocarros, onde contemplei as camionetas mais antiquados de Marrocos que continuam a lutar ferozmente contra um território inóspito e contra multidões ávidas que as carregam até à exaustão.
Mais para o fim do dia sentei-me numa esplanada e pedi um chá de mente, a bebida tradicional. O empregado pousou um bule e dois copos em cima da mesa. Fiquei surpreendido por ver dois copos, mas depois suspeitei que me seria permitido beber apenas dois copos. Contudo, o chá estava tão saboroso que bebi alternadamente pelos copos até esvaziar o bule. O resultado desta falta de cortesia foi uma má disposição causada pelo excesso de concentrado de hortelã.
Quando regressei ao camping vi que tinha vizinhos. Sentámo-nos em frente das tendas enquanto conversávamos e nos conhecíamos melhor. Uma vela ardia protegida por uma garrafa de plástico das raras correntes de ar enquanto o rapaz enrolava um charro. Ofereceu-me, mas recusei. Falámos sobre as suas vidas e a experiência de viagem em Marrocos. Ele é inglês e dá aulas em Espanha ela é uma estudante espanhola. Ambos vivem na Galiza, na cidade de La Coruña. Nessa noite, acabámos por jantar os três um prato de couscous no restaurante do parque.


10. Rumo ao Sul (25 de Agosto de 1993)



Encontrava-me quase no extremo sudeste de Marrocos. Os meus objectivos estavam a ser cumpridos e, apesar de todas as adversidades, eu sentia-me muito satisfeito com tudo o que tinha vivido… com os lugares que visitara e com as pessoas que, de forma efémera mas intensa, conhecera ao longo da viagem.

Os dias destinados a esta viagem estavam a terminar em casa a 28 de Agosto para descansar um dia e retomar a monotonia de um trabalho aborrecido. Perante este cenário, restava-me um dia para fazer o que entendesse no sul de Marrocos.

Estava indeciso entre a viagem até Zagora, aldeia situada a 168 km a sudeste de Ouarzazate, ou alugar uma bicicleta e fazer um circuito pelas aldeias à volta desta cidade. Acabei por me decidir a favor de Zagora em função de dois argumentos significativos. Sabia a aldeia de Zagora em si não seria particularmente interessante, mas que o caminho que aí conduz tem fama de ser um dos mais espectaculares de Marrocos com uma estrada que desce as montanhas até ao desfiladeiro de Tizi-n-Tififft e segue paralela ao leito do rio Drâa até Zagora. Por outro lado, Zagora estava às portas do Deserto o que me permitia uma pequena incursão nas areias e conviver com estas paisagens inóspitas e fascinantes.

Acordei cedo e feliz na minha tenda. Após as reflexões citadas decidi ir passear nos arredores da Kasbah de Taorirt. O tempo parecia parado naquele lugar: mulheres passavam com bandejas de pão em cima das cabeças cobertas por lenços coloridos; crianças que se escondiam e espreitavam por entre as ruínas de casas e muros e homens idosos que conduziam pequenos jumentos carregados.

Ao meio-dia estava pronto para partir para a última etapa rumo ao sul! O autocarro para Zagora ia lotado com gente de todas as raças e culturas: Homens do deserto de pele torrada e com longos turbantes que esvoaçavam com o vento que entrava pelas janelas; mulheres berberes com trajes estampados de cores vivas e longos brincos a condizerem com outros adereços; Árabes do Norte e alguns turistas estrangeiros.

Não ia muito bem instalado com uma mulher e uma criança entre os dois que não parou sossegada durante toda a viagem. Porém, o exotismo do lugar e das pessoas fez-me esquecer este incómodo.

Uma paisagem deslumbrante surgiu alguns quilómetros depois e termos abandonado Ouarzazate. Desfiladeiros provocados pela força das águas de rios agora secos, davam um aspecto enigmático às montanhas circundantes. A velha camioneta dava curvas sucessivas limitadas por precipícios à medida que progredia a sua lenta ascenção.

Parámos em Agdz, uma pequena aldeia com vários cafés e muitas lojas cujos proprietários esperam, ávidos, pelos turistas que saem dos autocarros. Dois jovens e insistentes berberes abordaram-me e não deixaram de me aborrecer enquanto não entrei nos seus bazares repletos de uma infinidade de artigos, desde tapetes a pedras polidas e outras peças de artesanato. Fui bem claro e disse-lhes que não iria comprar nada, mas eles têm muita confiança na sua capacidade de persuasão e esboçam um sorriso que denota a mais pura descrença naquilo que tinham acabado de ouvir. Todavia, consegui vencê-los e todos os argumentos para me impingirem os seus produtos foram infrutíferos. Restou a célebre expressão “c’est pour le plaisir des yeux”. Mais do que qualquer compra que pudesse ter feito nesta viagem, o grande souvenir que trouxe foi mesmo através do “plaisir des yeux”. Despedi-me, não sem algumas recomendações para agências de viagens no deserto que iria encontrar em Zagora.

Entrámos no Vale do Drâa, ladeado por cordilheiras de montanhas desérticas, onde corria o rio Drâa agora com pouca água e muitas palmeiras e vegetação nas margens. Do lado direito da estrada rumo ao Sul, sucediam-se as fortificações construídas em terra e palha, memória dos tempos em que as lutas entre berberes e árabes eram constantes. Hoje, fazem lembrar castelos de areia que, a qualquer momento se podem desmoronar, mas que têm resistido ao passar do tempo e se confundem com a própria paisagem.

Uma areia muito fina começou a entrar pelas janelas abertas da camioneta e pensei que estaríamos já muito próximo de Zagora. Repentinamente, o autocarro imobiliza-se e entram três jovens berberes que se espalham pelo interior do veículo. Um deles, de estatura baixa, pele e cabelo escuro, instalou-se no assento ao lado do meu. Não perdeu tempo e iniciou a sua abordagem. Alguns minutos depois já sabia que a família tinha dois dromedários e que partiam com frequência em caravana ao interior do deserto. O seu objectivo era que eu comprasse uma viagem de dromedário, que me instalasse no camping do tio, que lhe pagasse algumas cervejas e que adquirisse alguma bijouteria que eles próprios produziam.

Era ao entardecer quando chegámos a Zagora. Saímos e o rapaz dirigiu-se a dois sujeitos que estavam encostados a um carro antigo. Falou com eles e depois disse-me:

- Anda! Eles vão levar-nos ao parque de campismo.

Hesitei, pois não pretendia afastar-me muito do centro da aldeia.

- Não vou – respondi. – Quero fica num sítio perto da paragem de autocarros.

- Mas é perto! – respondeu imediatamente.

- Então não é preciso ir de carro – afirmei eu.

- É já ali! - exclamou, apontando com o dedo. – De carro é mais depressa.

Estava quase convencido e preparava-me para entrar no veículo, quando voltei a desconfiar dos indivíduos que não conhecia de lado nenhum. Mais conversa e mais explicações e lá entre na viatura.

Na verdade, conduziram-me até ao camping se assim se pode chamar. Era uma parcela de terreno parecida com um quintal grande onde havia um tanque e algumas plameiras. Não havia mais campistas para além de mim e dois alemães.

Decidi não montar a tenda pois estava tanto calor que poderia dormir ao ar livre sem qualquer problema. Por outro lado estava com pressa para ir fazer um passeio de dromedário pelas redondezas. O jovem berbere pegou numa acelera decrépita e sugeriu que me sentasse atrás. Percorremos várias ruas de terra batida por onde galinhas esvoaçavam e cacarejavam à passagem do velocípede e idosos paravam a olhar para um co-piloto de aspecto “exótico”: calções de ganga, óculos azuis, boné amarelo, camisa atada à barriga e ténis Reebok. Peças que o meu anfitrião queria que lhe oferecesse.

Atravessámos um pequeno riacho e subimos uma encosta onde se localizava a casa dos seus familiares. Prepararam um dromedário. Subi para cima do animal agachado e segurei-me fortemente a uma argola de ferro na parte posterior da sela. Com três guinadas, o dromedário levantou-se. Partimos, com o Mohamed a segurar o animal por uma corda enquanto caminhava à sua frente.

Primeiro, circulámos por ruelas estreitas com casas de palha e terra batida, depois saímos da aldeia e passámos por quintais e pequenas propriedades de palmeirais delimitadas por muros de terra cor de areia. Era um oásis! Por entre a vegetação corriam pequenos riachos onde algumas mulheres lavam roupa.

Quando saímos do palmeiral, surgiu uma paisagem de areia modelada por um vento que soprava em permanência, mantendo constante aquele padrão no solo arenoso que nos dá a ideia de uma ondulação constante. Parámos para tirar fotografias e deposi continuámos até ao lugar onde as águas do rio Drâa se perdem nas areias do deserto. O vento tornou-se mais forte, transportando consigo minúsculas partículas de areia que me entravam por todo o corpo, especialmente nos olhos. O meu boné é levado pela ventania e Mohamed larga a corda do camelo para ir atrás dele. O animal começou a fica agitado e afastava-se do dono. Eu agarrei-me bem, pois sentia-me inseguro enquanto esperava que o rapaz actuasse rapidamente e acalmasse o dromedário. Mohamed aproximou-se devagar enquanto emitia uns sons esquisitos e esticava o braço para a corda caída. Com um movimento firme, agarrou-a.

Fizemos outra pausa junto a uma lagoa do rio Drâa. Mohamed enrolou o seu turbante à minha cabeça e tirou-me umas fotografias. Enquanto isso, o Sol começava a desaparecer no horizonte desértico e Mohamed sugeriu que regressássemos à aldeia.

Devolvi-lhe o turbante e voltámos a entrar no palmeiral. Do cimo das árvores desceu um grupo de garotos que correu para nós para oferecer tâmaras em troca de alguns cigarros.

À noite levaram-me a um bazar. Sentámo-nos no chão atapetado em redor de um fogareiro que fervia água para o tradicional chá de menta. Um rapaz, que se intitulava Tuaregue, de turbante azul e calças largas começou a falar sobre o modo de vida do seu povo, das suas produções artesanais e da sua forma de ganhar a vida. Explicou como faziam determinados objectos durante as viagens que empreendiam para trocar os seus produtos. Queria, como todos em Marrocos, vender alguma coisa: um tapete, um tabuleiro, um anel… mas eu não estava interessado em compras. Queria apenas a recordação daquele serão num bazar, sentado num tapete a beber chá de menta, numa aldeia às escuras perdida na orla do deserto.

Satisfeito com os últimos acontecimentos, senti uma agradável sensação por ter realizado a aventura que tinha idealizado e ter chegado a Qualquer Lado No Sul!

Instalei o saco cama debaixo de uma palmeira e, sob um céu onde as estrelas brilhavam mais do que nunca, deixei-me embalar pelos tambores e cantares, de uma qualquer festa particular, que ecoavam na noite.


11. O regresso (26 de Agosto de 1993)



Passei uma noite esplêndida debaixo da palmeira, mas tive de acordar cedo para apanhar o único autocarro para Marraquexe. Numa loja antiquíssima próximo ao local onde parava o autocarro comprei um pequeno pacote de leite, mas sabia tão mal que não o consegui beber.
Voltámos a parar em Agdz para o pequeno-almoço. Comi pão marroquino, compota e dois cafés com leite. Mais uma curta paragem em Ouarzazate e avançámos pelas montanhas do Atlas. A pausa para o almoço foi na mesma aldeia de montanha onde estive a lavar o saco com o velhote. Num café progressista com posters de Michael Jackson, Scorpions e Bo-Derek comi uma sandes de atum e outra de ovos cozidos.
Mais uma vez, a travessia do Atlas foi um momento espectacular com as suas montanhas semidesérticas e aldeias de casas modestas e ruas desordenadas dispersas por encostas e vales. Mulheres trajando roupas largas e coloridas tocavam o gado, carregavam lenha e erva ou lavavam roupa em rios com pouca água.
Às quatro da tarde chegámos a Marraquexe. Sob o peso do calor que pressionava a cidade mítica marchei encostado às paredes procurando as poucas sombras disponíveis. Cheguei à estação de comboios e comprei um bilhete para Tânger em beliche. Durante a viagem conheci mais dois viajantes solitários: um inglês e um japonês. Enquanto o comboio partia, falámos de viagens e aventuras, de diversões e perigos. O japonês quase que conhecia o mundo. Contou-nos histórias da América Latina e da Índia. O inglês já tinha visitado Portugal e regressava agora ao seu país.
Foi uma noite tranquila no beliche do comboio para Tânger, onde chegámos pela manhã. Arrumei rapidamente a bagagem e segui par ao porto acompanhado pelo inglês, para embarcarmos rumo a Algeciras.
Havia muita gente e muita confusão no ferry. Tomámos o pequeno-almoço sentados no chão e permanecemos no exterior durante toda a viagem a apreciar o mar e o estreito de Gibraltar.
A forma mais rápida de chegar a casa era apanhar um autocarro para Sevilha e, seguidamente, outro para Badajoz. Cheguei já noite e ainda dormi nesta cidade. Só no dia seguinte de manhã chegaria a casa



12. Bem-vindo a Casa (28 de Agosto de 1993)

Estava satisfeito com esta viagem que tinha feito a Marrocos. A forma mais ou menos aleatória como a viagem decorreu, os lugares tão distintos que tivera oportunidade de visitar, o contacto com outros viajantes e locais, as incertezas e, acima de tudo, a confirmação de que a viagem é uma forma privilegiada de conhecimento do mundo.
À chegada, fique surpreendido com o que se tinha passado durante a minha ausência. Como tive dificuldade em estabelecer comunicação com Portugal, apenas telefonei quando chegara a Tânger. Cometi o erro de confessar à minha mãe que estava na companhia de um marroquino que conhecera havia algum tempo e que lhe telefonaria nos próximos dias. Contudo, não voltaria a falar com ela apesar das tentativas que fiz, principalmente até chegar a Marraquexe.
Na verdade, não me preocupei muito, pois estava a contar chegar a casa no dia previsto e nem imaginei que esta atitude irreflectida pudesse estar a provocar tanta preocupação na minha família. A minha mãe, atormentada com a falta de notícias e com uma predisposição natural para prever a catástrofe, estava, de forma involuntária, a provocar um alvoroço que ia crescendo vertiginosamente de dia para dia. Uma vez que o telefonema prometido não chegava, a minha mãe montou vigilância ao telefone alternando a guarda com a minha avó. Quando a campainha tocava, os seus corações davam um salto na expectativa de notícias minhas. A seguir era a decepção total quando outra pessoa se apresentava no outro lado da linha.
À medida que o tempo passava, ia entrando numa angústia e num pessimismo sem precedentes. Deixou de ir trabalhar e passava as horas e minutos junto do telefone. O resto da família também estava mobilizada e impotente perante uma possível tragédia. A vizinhança e a própria aldeia, em breve, estavam também alerta e emocionados perante este caso.
As especulações começaram a circular, espalhando-se para além do limite da povoação. Algumas, que mais tarde conheci, eram absolutamente fantásticas. A minha mãe achava que tinha sido assassinado por aquele marroquino que estava comigo em Tânger. Outras referiam que eu tinha sido comido por um camelo e outra ainda, que tinha levantado todo o dinheiro do banco e tinha fugido (!) para Marrocos!
As pessoas afluíam à minha casa numa peregrinação ininterrupta. A minha mãe entrou numa depressão que caminhava para o estado de choque. Tinha abandonado o seu posto junto ao telefone e recusava-se a atendê-lo. Tinha perdido todas as esperanças. Achava impossível que eu ainda não tivesse telefonado, quando, na verdade, tinha prometido. Não podia mais atender o telefone para responder às pessoas que não paravam de lhe telefonar para saberem se ela já sabia alguma coisa.
Telefonaram para o consulado português em Tânger, rezaram-se orações, fizeram-se promessas aos santos e magias caseiras para descobrir a verdade. Mais tarde, uma familiar confidenciou-me que todas as noites rezava uma oração para me proteger do mal. A minha madrinha prometeu uma caminhada descalça até à igreja e um conjunto e orações.
O pesadelo terminou quando, em Sevilha, telefonei a informar que iria chegar no dia previsto. A magia foi glorificada porque foi infalível, esclarecendo que eu já não me encontrava em Marrocos, as rezas reforçaram o seu poder protector e Nossa Senhora foi louvada numa caminhada de três quilómetros sem sapatos que nos levou à presença da imagem venerada.
Lamento ter contribuído, de forma involuntária e um pouco irresponsável, para que os meus pais tivessem vivido momentos tão dolorosos. Agradeço a todos as preocupações que tiveram comigo e as atitudes que, de acordo com as suas crenças, cada um demonstrou.






Destination details:   Morocco, Morocco
 
Tags : diariowritingafricaMoroccomarrocos

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